Monday, July 17, 2006

Modas

Sempre detestei. Não as modas em si, mas a mania generalizada de que se tem que andar atrás delas, custe o que custar, doa a quem doer. E dói muitas vezes ao bolso. Outras vezes dói à vista. Gosto particularmente da moda da calcinha de cintura descaída. De um momento para o outro, todas as mulheres que eram magras conseguiram a incrível proeza de parecerem gordas e todo o mundo foi brindado com a maravilhosa revelação dos seus proeminentes pneus laterais. Muitas conseguiram também projectar a níveis recordistas as suas barrigas para fora do corpo.
Com os saltos altos usados diariamente, mesmo nas tarefas rotineiras, muitas foram também capazes de transformar o elegante caminhar feminino num sofrimento trôpego e coxeante, muito semelhante a pagamento de promessa em Fátima.
Outra moda recente são os óculos. Se em tempos, usar óculos era um sacrifício da imagem, hoje usar óculos fornece aos seus utilizadores um inigualável estilo intelectual, numa espécie de sensualidade de génio. Mas não podem ser uns óculos quaisquer. Têm que ser rectangulares e pequenos. Contudo, obtém-se, é claro, um campo de visão mínimo! Em que se vê mais armação do que mundo à nossa volta.
Mas parece não haver dúvidas. A escolha entre a moda e o útil, o prático ou adaptável a nós parece ser a decisão mais fácil do mundo. A moda sempre. Mesmo que o resultado final seja uma elefanta gorda e desajeitada, a andar no arame, e a ir de encontro às coisas.

Thursday, July 13, 2006

Blasfémias

Enquanto as pessoas andavam a elevar a dez a prestação da selecção nacional, enquanto saíam às ruas a buzinar na passagem de cada etapa, enquanto se iludiam que o quarto lugar era mais que suficiente e que a selecção era campeã, o país continuava a afundar lentamente. Os preços dos transportes aumentavam, empresas fechavam, o emprego diminuía, e a classe política baldava-se para a Assembleia mais um bocadinho e corrompia-se ainda um bocadinho mais.
Eu até percebo que as pessoas precisem de umas alegrias, e até que se permitam distrair do resto durante um mês. Ainda que seja uma alegria ôca, é uma alegria, uma euforia que sabe bem.
Mas, meus amigos, para tudo há limite. E para mim o limite é olhar para a televisão e ver uma freira – sim, uma freira – dizer que reza para que a selecção ganhe. Isso é que não! Anda Deus ocupado com tanta asneira que fazemos, e querem meter-se umas cunhas para o futebol? Não haverá um mínimo sentido de prioridades? E há por aí muito bom português que se dedicou ao mesmo desplante, ajoelhando-se à noite ou cruzando os dedos antes dos jogos, pedindo que o Figo faça um passe de mestre, e que o Ronaldo chute um balázio imparável.
E mais, porque raio haveria Deus de preferir os portugueses aos franceses ou aos gregos ou aos italianos? Será que, por sermos um povo onde populam corruptos, encostados e incompetentes, Deus deverá ter pena e mandar-nos a abébia de ganhar um campeonato?
Se virmos bem, até nisto somos iguais a nós mesmos. Surgem os obstráculos e as dificuldades, e nós, em vez de encararmos que certas coisas se conseguem com esforço, e não com cunhas, vamos logo pedir uma ajudinha divina. Está bem, façamo-lo. Mas em coisas que realmente importem.

Tuesday, July 04, 2006

Preconceitos

Que o mundo está feito para dois já se sabe. Que a maioria das pessoas se sente mais feliz com um parceiro também. Só que, se aos 18, aos 20, aos 25, ainda se estuda, ainda se sai muito à noite e se conhece muita gente nova, aos 30, 35, 40, o círculo para a maioria é restrito, as novas amizades raras, e portanto as oportunidades escassas. Aí chega a Internet, e os trintões voltaram a sair à noite, de pantufas calçadas, a conhecer gente nova, de pijama, e a entrar em “flirts” a beber um sensual chazinho de limão. E também já toda a gente sabe que há muitos casos de sucesso, que dão em felicidades, casamentos e bebés que nunca teriam acontecido, não fosse este mundo virtual em que as aparências se esbatem em prol dos conteúdos. Também há os casos infelizes, mas alguém que me diga em que mundo é que eles não acontecem.
A mim não é nada disto que me surpreende. Surpreendem-me os outros. Os que se recusam terminantemente sequer a lá entrar. Então há dias percebi porquê. Há uma certa camada de trintões que aparentemente se sente acima dos que andam no mundo virtual. Porque eles não são feios. Porque eles não estão desesperados. Curiosamente, continuam sozinhos. E lamentam-se pelos cantos que não encontram ninguém. Mas não, não estão desesperados.
Acho que, pior do que julgar os outros e catalogá-los como desesperados, é acharem-se tão superiores e belos que nunca poderiam estar desesperados.
Eu até sou tradicionalista. Para nos apaixonarmos por alguém, temos que o conhecer no todo, no interior e no exterior, nos movimentos, no olhar, na linguagem gestual, no toque e em tudo aquilo que só a presença pode dar. Na internet há de tudo, como na farmácia, ou deveria dizer, como no resto do mundo. Há bares porreiros, cafés, com boa gente e boa conversa, e há bares do engate, que gritam sexo por tudo quanto é lado. É apenas uma questão de escolher “where do you want to go today”.
Gente supostamente moderna que se recusa a experimentar o que a modernidade lhes pode dar. Pois bem, quem se recusa a experimentar por preconceito, já é um desesperado.

Monday, July 03, 2006

O maravilhoso mundo das mulheres

Não sou capaz. Por muito que me esforce, entrar neste mundo das mulheres é-me totalmente impossível. Devo ter nascido com este “handicap”, porque tentar encaixar-me neste mundo é como forçar uma corrente de aço a passar pelo buraco da agulha. Não sou capaz de:

- falar mais que 2 minutos sobre bebés;
- enumerar todas as minhas prendas de Natal;
- pedir com detalhe a localização de uma loja onde a amiga comprou uma peça de roupa a bom preço – e ir mesmo lá!;
- correr para o centro da sala e afogar em baba o bebé da colega que veio mostrá-lo;
- ir em expedição de grupo às lojas de roupa;
- chegar do fim-de-semana e contar as lojas onde fui e as roupas que comprei;
- entrar por rotina nas lojas de marca;
- sentar-me horas a falar sobre o trabalho e as colegas;
- reparar nas roupas das outras (as não amigas);
- reparar sempre que as amigas trazem uma peça de roupa nova – e fazer um grande alarido;
- reparar sempre que as amigas mudam de penteado - e fazer um alarido ainda maior;
- todos os dias dizer que vou fazer dieta;
- quase todos os dias queixar-me que estou a ficar velha;
- pensar que, se fosse rica, fazia logo uma lipoaspiração;
- contabilizar os casamentos e os filhos das outras (as não amigas);
- estar meia-hora a contar as gracinhas que fez o filho da amiga;
- comer só alface ao almoço por causa da linha, e ao jantar devorar um frango, devido à fome;
- beber em cada semana um chá dietético diferente;
- lamentar quase diariamente a celulite;
- falar horas sobre relações;
- achar que aos 35 se entrou na velhice.

Que não haja enganos. Já sei que nem todas são assim. E que as outras não são apenas isto. E eu própria tenho mulherices. Complico muito, penso ainda mais, também sonhei com o vestido de noiva, gostava de ser mais magra e também falo do trabalho. Mas os restantes meandros repelem-me como os pelos do bolor no pão. Como as unhas no quadro. Como a broca do dentista.
Se alguma vez me apanharem em algum dos pontos acima, estão autorizados a dar-me uma pancada na cabeça. E encaminhar-me para Abu-dhabi.

Quer e apetece

Hoje temos que ser todos iguais. És magro. Estás parvo? És gordo. Estás bom da cabeça? És lindo. Quem é que pensas que és? És feio. Pensas que chegas a algum lado? És inteligente. Julgas que és melhor do que nós? És burro. Estás a pensar que te facilitamos a vida?

Ninguém pode ser diferente, pensar de forma diferente, ter opiniões diferentes. Toooda a gente tem que andar na mesma linha. Todas as palavras medidas. Todos politicamente correctos. Tudo o resto é implacavelmente censurado. Ninguém pode por um instante dizer o que quer e lhe apetece.

Aqui - porque não há caras - é diferente.